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O Jeitinho Brasileiro – Parte 3 – O Homem Cordial

Continuação da primeira e da segunda parte.

Finalizo minha abordagem, sem o intuito de esgotar todas as vias de estudo sobre o assunto, analisando uma prática que muito se confunde com o conceito formal de jeitinho brasileiro: a cordialidade. Para o tema, torna-se indispensável a leitura do capítulo Homem Cordial, do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.

Cordial é aquela pessoa que utiliza da gentileza como instrumento para alcançar seus objetivos privados. Torna, assim, as pessoas com as quais se relaciona mais acessíveis às suas vontades, trazendo-os para perto do coração – por isso, cordial. Além disso, faz uso de palavras no diminutivo para criar uma intimidade com as pessoas e com os objetos, com o fim de cuidar de seus interesses próprios, como bem explica Holnda:

No domínio da linguística, para citar um exemplo, esse modo de ser parece refletir-se em nosso pendor acentuado para o emprego dos diminutivos. A terminação “inho”, aposta às palavras, serve para nos familiarizar mais com as pessoas ou os objetos e, ao mesmo tempo, para lhes dar relevo.

Entretanto, a cordialidade não traduz, necessariamente, os motivos pelos quais o sujeito se faz íntimo dos demais. Ela é uma forma de convívio que facilita a obtenção das vontades pessoais. A cordialidade não abrange apenas, obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade também pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do intimo, do familiar, do privado. A exemplo disso, o cunhadismo indígena a que me referi na parte 2 do estudo.

Depreende-se do texto de Holanda que a cordialidade repudiável é aquela composta pela vontade do agente. O agente, cuja cordialidade se insere no conceito estrito de jeitinho, deve ter em seu íntimo o objetivo a alcançar com suas ações. Desse forma, não se confunde o Homem Cordial de Sérgio Buarque de Holanda ao cavalheiro, que naturalmente pratica gentileza, sem aguardar um retorno por conta dessa prática.

O cordialismo rejeitável também é abordado por Roberto DaMatta em Carnavais, Malandros e Heróis. Segundo ele, o jeitinho e a malandragem são formas de nós, brasileiros, sobrevivermos a essas diferenças, burlando as leis e as normas. Em ouras palavras:

[...] entre o ‘pode’ e o ‘não pode’, escolhemos, de modo chocantemente antilógico, mas singularmente brasileiro, a junção do “pode” com o “não pode”. Pois bem, é essa junção que produz todos os tipos de “jeitinhos” e arranjos que fazem com que possamos operar um sistema legal que quase sempre nada tem a ver com a realidade social [...].

Portanto, conclui-se que o limiar entre a cordialidade em sua acepção pura e o jeitinho se dá com a presença da vontade do agente. Propositalmente ilustrei este post com uma imagem de Charles Chaplin, cujo personagem era cordial, incondicionalmente, diferente do “homem cordial” de Holanda, que usa-se de sua gentileza para galgar objetivos.

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